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CRI



Ando por um mundo de matéria escura. À frente: a mata. Aquilo que nos cobre, separa e define o mundo do resto que não é nada. Escuta: tudo vibra – e cada instante tem seus presságios. É madrugada, calada da luz: não há garantia de que após essa noite virá um novo dia. Nunca há e há quem o saiba bem, pedra, bicho, planta, cuja sina é guardar essa hora, no sibilo contínuo do breu. Acima, o zunido de uma estrela que cai, inseto que passa. Espio, ao longe, o lampejo dos grilos, das rãs e dos cometas, no limite entre o conhecido e o desconhecido. Sigo a centelha de um som oculto, a paisagem dita a frequência e o compasso da existência. Esse som me atrai à água, uma lagoa não-estática. Formigas me sobem às canelas, meu passo é intruso no fim da noite. Escuta: é preciso ouvir este fim, pois, se não for assim, não há início. É uma troca de guarda – e há o risco do perigo. Bicho contra paisagem. Esse tremor em suspenso é um aviso. A aurora é feita de espera e escuta e se descobre em ondas de silvos e coaxos, calmaria e estampido, alvorada de ruído. Respiro, sinto o bafo quente e úmido da noite que se esvai e que tudo desperta. Escuta: o sem-fim das esperanças, aranhas, antas, moitas, luas, mosquitos, passos, pios, planetas, grama, satélites, zumbidos refletindo no firmamento d'água uma miríade de ritmos, como besouros que planam sonoros e pesados no pulso do mundo. Noutra margem, uma cascavel chacoalha o guizo do tempo, enquanto estrangula, lentamente, com a boca ancestral, o corpo vivo de um sapo, que coaxa mudo. Da sua costela escorre um rio rubro-negro chamado silêncio ou luto. Escuta – atenta – o dia raia e, como tudo no mundo, grita.

texto de Matheus Vinhal

Realizado na Fazenda São João durante a residência SOMSOCOSMOS.